domingo, 23 de dezembro de 2012

Pessoal do Ceará juntou rock´s e toadas no mesmo som

Escrito por Bruno Hoffmann   

7 de outubro - dia do compositor nacional


  Em comum, todos eram jovens e ligados às artes, principalmente à música. Também coincidia serem cearenses ou viverem no Ceará e ansiarem por mudanças na cena cultural do início dos anos 1970.   Destacavam-se nomes como Ednardo, Raimundo Fagner, Fausto Nilo, Belchior, Augusto Pontes. Essa junção de tanta gente boa ainda não estava batizada. Um locutor de uma rádio paulistana, porém, os anunciou como Pessoal do Ceará. E foi dessa forma que aquela agitação cultural entrou para a história.
  O movimento iniciou-se entre estudantes da Universidade Federal do Ceará, então centro das discussões intelectuais de Fortaleza. Os jovens ouviam de forró a bossa nova, Tropicália e Beatles. Essa mistura de influências começou a resultar em sons nunca ouvidos no lugar. Tudo com letras inspiradas, que reproduziam o anseio por mudanças estéticas.
  Um dos marcos foi o lançamento, em 1973, do disco Meu Corpo Minha Embalagem Todo Gasto na Viagem, que recebeu como subtítulo Pessoal do Ceará. Nas vozes de Ednardo, Rodger Rogério e Teti, o disco apresentava uma pequena revolução cultural. 
  Surgiam harmonicamente maracatus, toadas, sertanejos, rocks e canções psicodélicas de vários compositores locais. “Nosso trabalho foi todo feito com o mesmo amor e carinho como se tecem os lindos bordados que esta capa estampa”, apresentava o texto do disco. A música Terral resumia o movimento:
Eu sou do luxo da aldeia / Eu sou do Ceará.



SAIBA MAIS
Acesse também o blog pessoaldoceara.blogspot.com
Fonte: AlmanaqueBrasil

sexta-feira, 21 de setembro de 2012

Receita para se esquecer um grande amor (Marcelo Maroldi)


Às vezes eu fecho os olhos, inspiro e procuro sentir a presença de quem já não está por perto. É um método que eu inventei tempos atrás..., e uso sempre quando o amor se transforma em saudade.
Os grandes amores existem. As grandes paixões existem. Eles existem. Eles simplesmente existem. Eu desejo que todo ser humano possa sentir o que eu um dia já senti. Somente uns poucos minutos daquele entorpecimento juvenil, daquela inundação de sentimentos que enlouquecem, daquela loucura toda que te envolve, te amedronta, aquela confusão monstruosa que vivi quando amei. E quando fui amado. Uma paixão avassaladora que me fez acreditar que eu ainda permanecia vivo. Vivo e amando. E amado. Mas, agora, eu fecho os olhos para dormir. A cama cresceu tanto de tamanho, o meu peito cada vez está menor. E muito mais vazio. Ninguém a me ninar. A minha mão não encontra a sua. Quem foi que viu a minha Dor chorando?! (Augusto dos Anjos, "Queixas Noturnas". Mas, no meu caso, diurnas também). Eu quero uma receita para se esquecer um grande amor, o senhor tem aqui para vender? O preço não me interessa, eu só quero poder seguir em frente. Nem precisa ser em frente..., basta seguir. Porque A minha vida sentou-se/ E não há quem a levante (Mário de Sá-Carneiro, "Serradura").

E o vazio logo aparece, não dá um minuto de folga (“meter a cara no trabalho” é algo que também não tem funcionado). O telefone não toca naquela hora, a minha caixa de e-mails não tem pena de mim, já não tem novidade boa a me contar. Uma sensação leve e prematura de derrota logo se apodera da gente. Depois ela cresce. Já não é mais sensação, é derrota mesmo. Eu não tenho mais para quem escrever os meus defeituosos poemas, a quem dedicar meus pensamentos, quem vai me acalmar quando a agonia aparece sem avisar? Eu me sinto tão sozinho. Por vezes eu nem me sinto. Meus olhos não vertem lágrimas, o meu coração não dispara. Será mesmo que estou vivo? Ainda nem maldisse toda a minha sina e mazela, nem afoguei minhas (agora) crônicas mágoas na cachaça libertadora, também não há outro perfume no meu corpo. Viver é amar, um dia me explicaram direitinho. Eu era inocente e acreditei. Só inocentes e tolos crédulos aprendem isso, eu tive o azar de ser um deles. Nem ouso reclamar.

Quando acordei foi em você que eu pensei. Provavelmente pensei em ti durante toda a noite também, mas dessa vez tive a sorte de não recordar. Não importa como minha vida esteja seguindo, é sempre em seu sorriso que meus pensamentos se convergem. Não há fuga nem plano B. Eu aprendi que não é te esquecendo que irei me livrar de você. Não importa quanto tempo transcorra, jamais me esquecerei daquela noite, aquela, quando estupefata você ouviu minha curtíssima e derradeira declaração de amor. Metade do tempo eu reflito sobre o que ela significou e o que ela irá se tornar em alguns parcos anos. Logo, meu coração será de outra, as suas coisas queimarei no quintal (afastando a cachorra para que não se queime) e essa frase eu voltarei a dizer. Mas não para ti, jamais para ti, nunca mais para ti... Você será apenas uma lembrança, feito tantas outras, e eu serei apenas uma lembrança para você... feito tantas outras. Já não me amas? Basta! Irei, triste, e exilado/ Do meu primeiro amor para outro amor, sozinho (Olavo Bilac, "Desterro").

Quem errou mais? Isso não importa agora, logo, posso ficar com toda culpa pelo nosso fracasso. Sempre sonhei com algo diferente, como nos contos de fadas e nos pagodes de três notas (e se me perguntam Que era mesmo que eu queria?/ ”Eu queria uma casinha/ Com varanda para o mar/ Onde brincasse a andorinha/ E onde chegasse o luar”, Vinicius de Moraes, "Sombra e Luz"). A realidade foi deveras distinta disso, só Deus é testemunha das minhas queixas. Mas, nesse momento, nada disso importa, nada do que doeu agora importa. Eu vou ficar aqui, sozinho, com minhas lembranças e nosso fracasso. Vou lembrar das partes boas, para me emocionar com a saudade. Não lembrarei de nenhuma briga, nem nada disso! Eu quero uma receita para esquecer dos momentos ruins, dos bons eu não preciso. Não preciso e não quero. Para que esquecer do que me orgulho? Do que me fez feliz? Deixa a saudade me machucar, meu anjo, uma hora ela se cansa. Eu não abro mão de recordar o quanto fomos felizes. Acabou, mas não sem muito amor. É o fim, mas não antes de muitas promessas de eterna felicidade. É isso o que vale, afinal. Eu busco isso a cada instante de minha vida.

Mas agora ele está lá e eu aqui. Ele está lá seguindo a vida dele, e eu estou aqui, seguindo a minha. Aqui eu te amo e em vão te oculta o horizonte (Neruda, "Aqui eu te amo"). Ela esta lá vivendo a vida dela como se nada tivesse acontecido. Acho, realmente não sei dizer (Teus olhos são duas silabas/ Que me custam soletrar./ Teus lábios são dous vocábulos/ Que não posso,/ Que não posso interpretar Fagundes Varela, "Canção Lógica"). Eu aqui, não triste, mas saudoso. Às vezes eu olho para os céus para descobrir se sinto algo de novo. Quem sabe um daqueles meus suspiros. Passo horas olhando as estrelas, sem entender por que elas brilham. Elas deveriam fazê-lo somente quando você fosse minha, não em qualquer situação. Mas você segue a sua vida, almoça feliz e se diverte enquanto procuro a receita para te esquecer. Sei que não irei sofrer, o que me castiga é a saudade. Não irei chorar, nem lamentar, tampouco desejar a morte. Irei apenas seguir em frente, sozinho agora, às vezes pensando: o que será que ela faz nesse momento?, agora que chove lá fora! O que será que ela faz? Será que pensa em mim? Será que sorri? Eu abro os braços para envolver a minha vida.

Lembra da música da Elis? Vou querer amar de novo e se não der eu não vou sofrer...? Preciso te dizer a verdade: se isso acontecer, eu vou sofrer sim, meu coração só existe para amar de novo, espero que você entenda. Eu sigo a minha vida por aqui, você continue a sua por aí. Se consegui a receita para se esquecer de um grande amor? Não, parece que isso não existe mesmo. A minha é seguir em frente, então, e quando não der, chorar, não há problema nenhum isso, quem aprende a amar, aprende a chorar também (Paulinho da Viola, "Amor Amor") . Eu aprendi, pratiquei contigo, jamais te esquecerei.

Cantemos a canção da vida,/ na própria luz consumida...

(Mario Quintana, "Inscrição para uma lareira")

"O ganhador", Lêdo Ivo (sempre ele!):

Tudo o que ganhei se desfez no ar como uma metáfora.
Agora só guardo o que perdi:
o vento que soprava na colina,
a neve que caía no aeroporto
e o teu púbis dourado, o teu púbis dourado.

Nota do Autor
Este texto faz parte da trilogia que começou com "Dos amores possíveis".

Extraído do blog Digestivo Cultural

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012

Beleza Interior: o melhor assador do Rio Grande


Com Dom Pedro I, mas às margens do Rio Pelotas, Chico ergue sua obra-prima: a costela em espeto de pauFoto: Tadeu Vilani
Fabrício Carpinejar
Honrando o fio do bigode grisalho, Chico Fialho faz coisas que ninguém espera. 

Descarna um boi inteiro e estende o animal em varal a céu aberto como obra de arte. O bicho desventrado é um quadro expressionista na moldura do pampa. 

Sua manta de charque impressiona todo açougueiro: o lanho preciso, cirúrgico, de quem conhece cada encaixe do osso do rebanho. 

Francisco Fialho, 79 anos, natural de Vacaria, tornou- se uma lenda de Lagoa Vermelha, cidade de 28 mil habitantes, a 314 quilômetros de Porto Alegre.
Foto: Tadeu Vilani
Já assou para 4 mil pessoas, abriu mais de 6 mil cabeças de gado, já foi tricampeão da Festa Nacional do Churrasco, montou uma das mais saborosas linguiças campeiras da região. 

– Churrasco ou morte! – grita o paladino, vestido a caráter, em cima do cavalo, imitando Dom Pedro I, com a mudança de cenário do Rio Ipiranga para o Rio Pelotas. 

De boina, estojo de 40 facas e botas de couro, Chico é o sonho de casamento da salada de maionese. Dispensa ajuda para reger a fumaça da chaminé. 

Nos anos 50, ao lado de Celso Teles, criou o corte alongado da carne, retangular, que abrasa de modo uniforme. 

Uma invenção tão importante quanto a térmica para o chimarrão. 

– É uma oposição ao churrasco tradicional de pedaços, onde a carne fica solta e irregular. 

Espetamos maminha e alcatra tudo junto – explica Fialho. 

Ele fecha o corpo do assado igual a um chef selando o filé. Quatro centímetros de espessura, sem abrir durante o cozimento, para gerar o transbordante suco somente na hora de comer. A incisão na costela é vertical, de cima para baixo, em vez do costume horizontal das churrascarias. 

Chico tem rituais quase religiosos. Ele usa exclusivamente lenha e espeto de pau (o de ferro aquece a carne por dentro mais do que deveria), e recusa conservantes (“Quero picanha com idade honesta. Como eu, que não pinto o cabelo”). 

Sua mais veemente loucura é conversar com o fogo. Escuta o crepitar tal nuances de uma voz. 

– O fogo manda e eu obedeço. Diferencio os estalos, eles me avisam do andamento dos espetos. Vi fogo pedir socorro e churrasqueiro nem acudir. 

A temperatura dos tijolos, bem como sua cor, também revela a qualidade da churrascada. Uma de suas regras é não beber. 

Considera a embriaguez do assador o principal motivo do sabor emborrachado da refeição. 

– Não tomo bira naquele momento, não existe como servir dois senhores ao mesmo tempo. 

Chico é sério, compenetrado, profissional, desaparece na boca das brasas. Ele controla a altura do fogo com pá de terra. 

– A terra é minha parceira, amansa a labareda e não agride como a água ou o vento – diz.

Sábio em seu ofício, recomenda um decálogo para prevenir tragédias gustativas: 

1) Não abane o carvão com papel, é uma demonstração clara de desespero. 
2) Evite avental, fogo não gosta de babá. 
3) Não tente atalhos, afobar o serviço, atender ao atraso de uma visita. Chama é como mulher. Quanto mais apressa, mais ela se atrapalha para sair. 
4) Churrasco é igual a paella. 
Pontual, não se disfarça madureza. 
5) A carne deve começar a assar pelo lado do osso, não pela gordura. A gordura é o grande final artístico, responsável pelo acabamento. 
6) Não vire a carne de um lado para o outro, churrasqueira não é pebolim. 
7) Não é melhor salgar demais do que não salgar. Os dois jeitos estragam o churrasco. 
8) Com pedaço excessivamente grosso, a carne ficará crua. 
9) Bem passado e malpassado acontecem ao mesmo tempo quando o churrasco dá certo. 
10) O silêncio de quem come é sinal de satisfação. Só o gemido supera a quietude. 
O único mandamento que ele admite quebrar é o décimo. Chico ama elogio escandaloso.

– O churrasqueiro é sempre o mais carente da família, e que a bajulação siga de preferência pela semana, até o próximo churrasco. 

segunda-feira, 16 de janeiro de 2012

COMPOSITOR DA SAÚDE MENTAL



Paulo Sérgio Rosa Guedes era extremamente ligado ao seu avô, que contava histórias saborosas e brincava de cartas. Otelo morreu de infarto fulminante numa terça chuvosa de 1956. Durante décadas, Paulo Sérgio, na época com 15 anos, reprisou a cena e pensou ter condições de socorrer e salvar o familiar. Carregou a culpa pela morte. Raciocinava por condicionais: "Se eu tivesse dormido na casa dele, não teria morrido"...

Foi seu trabalho de psicoanálise que o possibilitou a se desfazer da onipotência e ajudar centenas de gaúchos a perceberem que a culpa, na maior parte das vezes, é inventada.

"A culpa em si é a única causa de doença mental, é um delírio de grandeza, que faz com que a pessoa acredite que é causadora de tudo", explica.

Autor de livros como O "Sentimento de Culpa" e "A paixão, caminhos & descaminhos", poeta e ensaísta, Paulo Sérgio, 70 anos, mostra o quanto é possível ter mais prazer e menos decepção, o quanto a culpa indica uma vontade insustentável de ter controle sobre qualquer coisa. É hábito dizer que algo deu errado porque não se agiu de determinada maneira, mas - na verdade - o sucesso ou o fracasso de um negócio ou relacionamento não depende somente de nossas ações.

"Não somos o centro do mundo, talvez tenhamos que descobrir qual é o nosso mundo para aprender a ser livre".

Em sua residência-escritório no alto da avenida Carlos Gomes, em Porto Alegre, Paulo Sérgio tem o despojamento da alegria. Sabe que o "riso é a coisa mais séria que existe". Gargalha entre frases de efeito. Articula pequenas teses em aforismos: "O que leva o jovem à insônia é o que faz o velho dormir" ou "É insuportável sermos tão diferentes uns dos outros".

Não se veste de modo pomposo, está sempre esportivo e tem a mania curiosa de calçar sapatos brancos. Na hora de comprar, não usa cartão de crédito ou cheque especial. Não sofre com aquilo que não é, muito menos pretende gastar o que não tem. Mantém o mesmo carro de 1994 na garagem, um Ford Taurus.

Paga à vista cada palavra. Não remói amargura.

"O que foi já me ensinou, o que virá não sei".

Poderia ser um xamã, um líder espiritual, mas é um dos psiquiatras mais conceituados do Rio Grande do Sul, com 42 anos de atuação, um exército de fãs e uma tropa de imitadores. Identifica a psiquiatria como música, converte conceitos em fala simples e comunicativa, transforma o jargão em sinfonia: ouvir é entender, amar é cuidar.



"Como ajudaremos com termos técnicos?", pergunta.

Quando recebeu de presente o piano de sua mãe Zuleika, na adolescência, teve vontade de recitar o texto “Gradiva” de Freud. É um compositor da saúde mental. Seu pendor acústico - toca igualmente violão e cavaquinho – emana de uma casa tomada pela arte, em que seu pai, também psiquiatra, professor da UFRGS, recebia amigos para longas e acaloradas discussões.

"Meu pai Paulo Luís Vianna Guedes morreu jovem, aos 52 anos, mas escondeu o riso no meu para continuar nossa serenata".

Seu pensamento é um antídoto numa época de festas de Natal e virada, de receio pelas férias, de excessivos gastos, de encontros familiares e ressentimentos.

"Final do ano é uma continuação do ano anterior. Sem pânico diante da página em branco, é apenas prosseguir escrevendo."

Hoje existe uma descarga desproporcional de cobrança: é cuidar do corpo, é atender as metas no trabalho, é sofrer por não acompanhar os filhos ou por não se dedicar ao namoro.

"Para que enlouquecer?", questiona. "Paga-se caro por preocupações irrelevantes".

Um de seus achados de percepção é desenvolver as diferenças entre culpa e responsabilidade. Por mais que soem parecidos, não são sinônimos.

Culpa é se isentar da ação, como se não tivesse envolvimento com as escolhas da própria vida. Responsabilidade é aceitar a vida como aconteceu - ainda que não tenha sido perfeita.

Quem é culpado vai adiar um prazer inúmeras vezes, é capaz de reclamar do trabalho e não mexer uma vírgula para mudar de emprego, criticar seu marido ou mulher e manter a rotina do jeito que não gosta para permanecer praguejando.

"É mais confortável se portar como culpado do que assumir os próprios desejos. Há gente que desabafa que não tem tempo para os filhos, mas não reivindica seu tempo, não abre seu tempo e procura encontrar desculpas externas para não ser criticado".

Então, a culpa traz uma dupla fantasia: de controle, em que a pessoa se vê geradora do que de ruim acontece em sua volta, e de fatalidade, em que não se sente apta a modificar o comportamento.

De acordo com Paulo Sérgio, o cotidiano depende de sorte e azar, daquilo que chamamos de acaso. Nada mais do que isso. E grande parte dos aborrecimentos surge da ilusão de ser importante em todo momento.

O culpado não faz por mal, ele mente para si e para os outros, é um enganado e um enganador. Sua atitude garante benefícios, senão não seria largamente adotada: preserva a idealização, cria amizades pela dependência do sofrimento e anula a autoridade de suas opções.

No período em que fumava, Paulo fingia que consumia um maço por dia, porém já destrinchava três carteiras. Prolongou a mentira para não arcar com as consequências de seu vício.

"Imaginamos que mentindo para si os demais não descobrirão. O que me faltava era opinião própria, reconhecer que não deveria ser melhor do que eu era, mas melhor no que eu realmente era".

É uma espécie de transe, de glorificação da vítima, de coitadismo insaciável; o problema passa a ser eternamente alheio, do governo, dos pais, do casamento, do mercado de trabalho, do trânsito.

"Na terapia, o culpado não procura ajuda, e sim um fiador, quer que concordemos com seus motivos para continuar sofrendo em vão. Chega com a alma vendida. A psicoanálise é o oposto: a arte de restituir a uma pessoa a alma que ela tem.”

A devolução da alma se desenrola pelo caminho da simplicidade: admitir o tamanho da experiência, acolher os defeitos e as falhas, permitir-se essencialmente errar e seguir adiante. Não ser superior ao passado, mas se contentar com o possível, o deliciosamente possível.

Paulo Sérgio é tão comum, que talvez ninguém repare na rua a desenvoltura de seu olhar. O brilho malandro de alguém que desvendou a verdade, recusando atalhos e assumindo suas vivências. Ele é um homem que trocou o poder pela confiança. Um negócio sábio.

June Schuck, 64, esposa há cinco décadas, é testemunha de sua enxurrada de idéias. Assim como seus filhos Luciana, Paulo Roberto, Ana Luísa e o neto Pedro. A família ri quando revela que o marido-pai-avô só poderia ter nascido em 1941, na maior enchente de Porto Alegre.

Não há dique que o contenha.


DECÁLOGO DA CULPA

1. O sentimento de culpa nunca é conseqüência, e sim causa.
2. Evite lista de intenções. Intenção não existe. Caso pretende fazer algo, faça agora. A ação é terapêutica.
3. Superfaturamos os dissabores. Tudo é muito dramático, inesquecível, incontornável. A vida é bem mais simples do que se imagina.
4. Ao invés de dizer o que se deseja, existe a fantasia de que o outro nos conhece e pode nos antecipar. É uma cilada: cobrará por não ser adivinhado.
5. Desconfie de sua importância: aquele inimigo mortal nem sequer sabe que você existe.
6. Reconheça que o outro não é igual: a diferença entre duas pessoas é maior do que entre dois animais de espécies distintas (Montaigne).
7. Em vez de interpretar, escute com atenção. Interpretar é se defender mais do que receber.
8. Não procure justificar o que fez, apenas diga que fez.
9. Se mantém a mesma opinião sempre, algo está errado. Coerência é mudar de opinião.
10. Inverta o mandamento “ame o próximo como a si mesmo” para “ame a si mesmo para amar o próximo”.

Fonte: Blog do Fabrício Carpinejar
Fotos: Cinthya Verri

O QUE É INSUPORTÁVEL NA MULHER?


Arte de Jean Fautrier




O que o homem não aguenta enxergar ou ouvir de sua companhia? O que arrebenta a paciência masculina? O que nos tira do sério?

1) Sovaco cabeludo (só fazia sucesso entre as atrizes comunistas da Alemanha Oriental);

2) Pernas lixas de parede (você vai dançar sertanejo universitário com ela e, no momento de coxear, acaba esfolado);

3) Calcinha cor de pele (o mesmo que encontrar a avó nas pernas de sua mulher);

4) Calcinha no box (a tendência é a torneira virar um cabide);

5) Puxar a calcinha do rego (o equivalente a coçar o saco para o homem);

6) A tradicional pergunta terrorista: O que está diferente em mim?;

7) Inventar que a gente está precisando de roupa para nos arrastar ao shopping e aproveitar a liquidação de sapatos femininos;

8) Não acreditar no nosso elogio. Nem no verdadeiro nem no falso.

9) Perguntar se ela está em TPM ofende, não perceber que ela está em TPM ofende;

10) Chorar no meio de uma briga (ela ganha a discussão porque chorou primeiro);

11) Mania de dizer que esqueceu algo quando acabou de sair de casa;

12) “Só um minutinho”, aquela enrolação na hora de se vestir;

13) Unha descascada;

14) Buço (não dá para engolir mulher com sobrancelha na boca).

Fonte: Blog do Fabricio Carpinejar

O QUE É INSUPORTÁVEL NO HOMEM?

O que é mais abominável no macho? O que é mais nojento? O que as mulheres detestam no homem? O que forma nosso índice de rejeição na corrida eleitoral pelo coração feminino?

Arte de George Grosz

1) Palitar dentes usando o interlocutor em espelho;
2) Cuspir na rua, e ainda olhar onde caiu;
3) Assoar com as mãos;
4) Bafo de cerveja;
5) Arrotar com orgulho, como Pavarotti do arroto;
6) Unha do pé quebrada e suja;
7) Bago para fora do calção esportivo;
8) Cofrinho de mecânico;
9) Braguilha aberta;
10) Pêlo na orelha;
11) Tirar sujeira do nariz dentro do carro;
12) Chiclete em voz alta, de boca aberta;
13) Soltar gases na cama;
14) Coçar o saco;

Se não tem nenhuma dessas atitudes, parabéns, você é um anjo, um querubim, certamente você não é homem.

Fonte: Blog Fabrício Carpinejar

sexta-feira, 13 de janeiro de 2012

Veríssimo disseca a imbecibilidade do "programa" da GLOBO!

Artigo sobre o BBB* – Luís Fernando Veríssimo Publicado a 24 Janeiro 2011 por Vitalves
Que me perdoem os ávidos telespectadores do Big Brother Brasil (BBB), produzido e organizado pela nossa distinta Rede Globo, mas conseguimos chegar ao fundo do poço. [...] Chega a ser difícil encontrar as palavras adequadas para qualificar tamanho atentado à nossa modesta inteligência. [...] Pergunto-me, por exemplo, como um jornalista, documentarista e escritor como Pedro Bial que, faça-se justiça, cobriu a Queda do Muro de Berlim, se submete a ser apresentador de um programa desse nível. Em um e-mail que recebi há pouco tempo, Bial escreve maravilhosamente bem sobre a perda do humorista Bussunda referindo-se à pena de se morrer tão cedo. Eu gostaria de perguntar se ele não pensa que esse programa é a morte da cultura, de valores e princípios, da moral, da ética e da dignidade. Outro dia, durante o intervalo de uma programação da Globo, um outro repórter acéfalo do BBB disse que, para ganhar o prêmio de um milhão e meio de reais, um Big Brother tem um caminho árduo pela frente, chamando-os de heróis. Caminho árduo? Heróis? São esses nossos exemplos de heróis? Caminho árduo para mim é aquele percorrido por milhões de brasileiros, profissionais da saúde, professores da rede pública (aliás, todos os professores) , carteiros, lixeiros e tantos outros trabalhadores incansáveis que, diariamente, passam horas exercendo suas funções com dedicação, competência e amor e quase sempre são mal remunerados. Heróis são milhares de brasileiros que sequer tem um prato de comida por dia e um colchão decente para dormir, e conseguem sobreviver a isso todo santo dia. Heróis são crianças e adultos que lutam contra doenças complicadíssimas porque não tiveram chance de ter uma vida mais saudável e digna. Heróis são inúmeras pessoas, entidades sociais e beneficentes, ONGs, voluntários, igrejas e hospitais que se dedicam ao cuidado de carentes, doentes e necessitados (vamos lembrar de nossa eterna heroína Zilda Arns). Heróis são aqueles que, apesar de ganharem um salário mínimo, pagam suas contas, restando apenas dezesseis reais para alimentação, como mostrado em outra reportagem apresentada meses atrás pela própria Rede Globo. O Big Brother Brasil não é um programa cultural, nem educativo, não acrescenta informações e conhecimentos intelectuais aos telespectadores, nem aos participantes, e não há qualquer outro estímulo como, por exemplo, o incentivo ao esporte, à música, à criatividade ou ao ensino de conceitos como valor, ética, trabalho e moral. São apenas pessoas que se prestam a comer, beber, tomar sol, fofocar, dormir e agir estupidamente para que, ao final do programa, o “escolhido” receba um milhão e meio de reais. E ai vem algum psicólogo de vanguarda e me diz que o BBB ajuda a "entender o comportamento humano". Ah, tenha dó!!! Veja o que está por de tra$$$ do BBB: José Neumani da Rádio Jovem Pan, fez um cálculo de que se vinte e nove milhões de pessoas ligarem a cada paredão, com o custo da ligação a trinta centavos, a Rede Globo e a Telefônica arrecadam oito milhões e setecentos mil reais. Eu vou repetir: oito milhões e setecentos mil reais a cada paredão. Já imaginaram quanto poderia ser feito com essa quantia se fosse dedicada a programas de inclusão social, moradia, alimentação, ensino e saúde de muitos brasileiros? (Poderia ser feito mais de 520 casas populares; ou comprar mais de 5.000 computadores). Essas palavras não são de revolta ou protesto, mas de vergonha e indignação, por ver tamanha aberração ter milhões de telespectadores. Em vez de assistir ao BBB, que tal ler um livro, um poema de Mário Quintana ou de Neruda ou qualquer outra coisa..., ir ao cinema..., estudar... , ouvir boa música..., cuidar das flores e jardins... , telefonar para um amigo... , visitar os avós... , pescar..., brincar com as crianças... , namorar... ou simplesmente dormir. Assistir ao BBB é ajudar a Globo a ganhar rios de dinheiro e destruir o que ainda resta dos valores sobre os quais foi construído nossa sociedade. Obs.: BBB* - Big Brother Brasil ( Luís Fernando Veríssimo ) Fontes: Blog do Luiz Aparecido e www.vitalves.com | Textos e Contextos, Frases e Fases...

domingo, 8 de janeiro de 2012

A canção que você fez para mim (Por Alberto Villas)


Quem não tem uma canção na vida? Aquela que marcou época, o primeiro beijo, a primeira transa, uma viagem, uma mudança, uma situação inesquecível? Música às vezes funciona como cheiro que quando bate nos faz lembrar. Uma fumaça que passa pode nos levar à beira de um fogão à lenha a quilômetros e quilômetros da metrópole até uma pequena fazenda no sertão.

Músicas perdidas no ar vivem grudadas na memória. Mais de três décadas depois ainda hoje quando ouço Ednardo cantando Carneiro viajo até a Rue de la Roquette no outrora mais comunista dos bairros de Paris onde um grupo de exilados ouviu junto a canção pela primeira vez.

“Amanhã se der o carneiro/Carneiro/Vou-me embora pro Rio de Janeiro.”

Leia mais:
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Gospel brasileira: a nova bossa nova?
Ela se foi, mas não a esqueci

Tenho um amigo que não pode ouvir Movimento dos Barcos na voz de Jards Macalé. Enfiado num terno no décimo andar de um prédio na Avenida Paulista ele tem vontade de vestir uma calça vermelha, um casaco de general, encher os dedos de anéis e sair por aí, pegar um velho navio acreditando que não precisa de muito dinheiro, graças a Deus.

Voltando à França dos anos 1970 ainda me lembro bem daquele sábado de final de dezembro num quarto de hotel em Gobelins ouvindo numa velha fita K-7 ao lado de Augusto Boal a canção que Chico fez pra ele.

“Meu caro amigo, me perdoe, por favor/Se eu não lhe faço uma visita/Mas como agora apareceu um portador/Mando notícias nessa fita/Aqui na terra tão jogando futebol/Tem muito samba, muito choro e rock and roll/Uns dias chove, noutros dias bate sol/Mas o que eu quero é lhe dizer/Que a coisa aqui tá preta/Muita mutreta pra levar a situação/Que a gente vai levando/De teimoso e de pirraça/E a gente vai tomando, que também/Sem a cachaça/Ninguém segura esse rojão.”

O rei Roberto, esperto, soube traduzir bem tudo isso cantando As canções que você fez pra mim.

“Hoje eu ouço as canções que você fez pra mim/Não sei por que razão tudo mudou assim/Ficaram as canções e você não ficou.”

Algumas músicas ficam mesmo para sempre. Em 1971, a guerrilheira Dilma Rousseff estava comendo o pão que o diabo amassou no presídio da Avenida Tiradentes em São Paulo e era uma canção que muitas vezes confortava aquelas mocinhas que viviam ali naqueles poucos metros quadrados imundos e fétidos. Cada guerrilheira nova que chegava Dilma a recebia com um acalanto porque não estava fácil segurar o rojão.

A história está muito bem contada no livro A Vida quer é coragem de Ricardo Batista Amaral. Quando bati os olhos na pagina 78, fiquei imaginando Paulinho da Viola lendo aquilo. Será que ele sabia que a futura presidenta do Brasil tinha na cabeça, naqueles momentos de aflição, uma canção sua?

A uruguaia Maria Cristina Uslendi conta que em outubro de 1971, toda vez que voltava das sessões de tortura encontrava Dilma de braços abertos “me amparando, me ajudando a usar a latrina quando não tinha forças, me dando sopinhas de colher na boca, me cedendo a parte de baixo do beliche e pondo na vitrolinha de pilhas as melhores músicas da MPB”.

Cristina conta que Dilma sempre pedia a ela que prestasse muita atenção à letra de Para um amor no Recife, uma canção de Paulinho que diz assim:

“A razão por que mando um sorriso/E não corro/É que vou levando a vida/Quase morto/Quero fechar a ferida/Quero estancar o sangue/E sepultar bem longe/O que restou da camisa/Colorida que cobria minha dor/Meu amor eu não esqueço/Não se esqueça, por favor,/Que voltarei depressa/Tão logo a noite acabe/Tão logo este tempo passe/Para beijar você.”

Pois é, existem canções que são verdadeiros rios que passam na vida da gente.

Fonte: Revista Carta Capital

segunda-feira, 2 de janeiro de 2012

Coisas da vida!!!!


Sábado mais uma vez deparei com mais uma cena do cotidiano que achei engraçada. Dei uma saída pra resolver algumas pendências da nossa festa da virada e parei pra tomar minha religiosa cervejinha de costume. Conheci um sujeito gente boa de bom papo e me convidou pra tomar um copinho quando de repente pra minha surpresa, um fato curioso. O sujeito sorvia sua cerveja tirando o gosto com...LEITE! Isso mesmo, leite! Me lembrou outra história que meu amigo Professor Roberto Araújo me contou que certa vez no seu Conjunto Ceará ele conheceu outro figura que tomava cachaça e tirava o gosto com pasta Kolynos! São coisas da vida! Feliz ano novo pra todos!

Bárbara de Alencar: A inimiga do Rei


O Ceará é terra bárbara de gente de luta e resistência. Terra da Luz e do Sol, onde a marca da coragem dos seus filhos e filhas alumia nossa história. Bárbara de Alencar, mulher libertária e republicana, foi a primeira presa política da história do Brasil.
Perseguida pelos poderosos, desta rebelde heroína não restou nenhuma imagem: Bárbara de Alencar teve o seu próprio rosto apagado da História. O cenário é pior do que Dante poderia imaginar naquela pequena cela onde padecia Bárbara de Alencar.

Os ferros ,atados às mãos e pés, arrancam parte da pele e da carne. As roupas, agora reduzidas a trapos, são as mesmas há meses. Os panos tinham sido rasgados pelos próprios prisioneiros e transformados em tiras que forravam os grilhões sobre os ferimentos que se magoavam a cada movimento do corpo. A comida é a mesma sempre: intestino de boi ou tripa cozida como mistura pra farinha seca. Nos cubículos mal não se consegue ficar de pé. O cheiro é terrível pois as necessidades fisiológicas são feitas ali mesmo. Muita dor no corpo e aperto no coração por saber que padecem do mesmo sofrimento os seus filhos, Tristão, Martiniano e José Carlos. Na lembrança, o sonho louco de Liberdade, Independência e República que desencadeou a violenta repressão da corte portuguesa, sediada no Rio de Janeiro.

O passado parecia visagem naquela prisão escura. O que era pesadelo e o que era verdade na vida daquela brava mulher? Para sobreviver, Bárbara pensava no passado de mulher rica, matrona do clã dos Alencar do Crato.

A casa da cidade era caprichosa, primeira construída em pedra e cal sob inspeção do mestre pedreiro vindo de Recife e localizada bem ao lado da Igreja Matriz de Nossa Senhora da Penha onde amigo íntimo Padre José Carlos celebrava as coisas da Igreja. A casa-grande do Sítio Pau Seco era um pedaço do paraíso, nas proximidades da Chapada do Araripe. Toda aquela paz aparente findou em 1817 , quando os Alencar apoiaram a Revolução iniciada na província rebelde de Pernambuco.

O movimento teve como causas a crise econômica do Nordeste com a decadência das lavouras tradicionais de algodão e açúcar, o monopólio comercial português , a seca de 1816 agravou ainda mais o quadro de miséria. Naquele terreno fértil para a revolta cresceu a influência iluminista que inspirou as revoluções francesa e americana. Os rebeldes queriam a libertação do Brasil e a Proclamação da República.

O caçula José Martiniano era seminarista em Olinda e voltou para o Crato embriagado com promessas de liberdade que espalhou como redenção na missa de domingo, em 3 de abril de 1817. As palavras eram fortes. Denunciavam a exploração do povo pelos portugueses e prometia a liberdade cidadão e republicana. Os presentes não eram poucos e todos aderiram ao movimento.

Mas o movimento era frágil e a reação foi violenta. Durou apenas oito dias a República Independente do Crato. A família Alencar e outros líderes, num total de vinte e cinco pessoas, tiveram os bens consfiscados, foram presos , torturados, enviados para celas em Recife, Fortaleza e Salvador. Acabaram anistiados em 1821 mas a chama rebelde não se apagou. Em 1824 explodiu a Confederação do Equador, movimento republicano e anti-absolutista contra o tirano D. Pedro I. Mais uma vez os Alencar tiveram importante participação. Nessa nova luta rebelde , Bárbara de Alencar, refugiada na fazenda Touro, na divisa do Ceará com o Piauí, chorou a morte dos filhos Tristão e Carlos, assassinados pela reação das tropas imperiais. Na ocasião declarou, “ Eu preferi a sorte ingrata dos meus filhos a receber favores de tirano.”

Acusada de inimiga do rei, dizia ser amiga do povo pois o El-Rei era um estrangeiro que vivia na corte, no Rio de Janeiro, distante e insensível à miséria de minha gente. Dona Bárbara de Alencar morreu no seu refúgio em 1832, aos 72 anos de idade. A sua casa no Crato, embora tombada pelo patrimônio histórico, foi demolida. A heroína não tem rosto mas é a cara de um país que ainda luta por liberdade e dignidade para o seu povo.


Fonte: Blog do Prof. Evaldo e Amigos